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Copyright © Fabbio Cortez
Por guest_guest
In Publico Cativo, Oficina Editores, Rio de Janeiro, 2007
______________________________
i
a meta
correndo faço planos nas esquinas de céu
sempre sozinho
pretendo seguir como voam românticos
colhendo estrelas da rua
na procura do teu ar da tua pista
dizendo pela cor da tua voz pela textura
da tua tez vou
sairei em viagem
saboreando os elementos
muito mais que todos
ventando o cheiro do fogo que lambe teus olhos
que dissemina da terra teus cabelos de água
ii
fraqueza
mas não penses que sou ingênuo
pois que sou fraco
e bem sei que é preciso ser forte
para ser ingênuo
iii
alimento
a imagem que transborda do teu minério
delirante
é delícia
do pensamento que dilacero na tua boca
ferrosa em doce moderno
- fruta suculenta que dá força -
alimentar-me-ei
catando perfeições simples da vida
sarando o caminho da busca
iv
a partida
parto em ciclos corro escorro salivando
esse açúcar compulsivo
atiro-me à tua feminina seiva torpe
nu:
alucinadas voadoras mãos de defesa
irregularidades da terra
raízes
música da noite
insetos da noite
esperam secos
por minha cara estúpida:
esbofeteiam-me quando passo mas não sinto
meus fios encravados da barba por fazer:
(grato por isso sangue fervilhante da jornada)
v
deliberações da morte
corro
morro
desmorro desembesto para o amor
esgotando os músculos da psique
ao lembrar que não toquei teus pêlos todos
sequer
do modo levíssimo
como poderia ter tocado
com toda a sensibilidade do mundo (um mudo)
(a que me foi dada de presente como dom especial
e de que tu nem conheceste a amostra de cílio):
demais te amo demais ainda e mais:
de tanta querença e tão tão sério apego
dilacerantemente surdo adesivo de derme
como verme até morri
convenceu-me a morte
pela sorte distraída
preferi morrer mas não paro:
ao faro da saída corro!
vi
a travessia
então na fronteira que a razão refaz
com o tal do amor (...?...)
atravesso-me sublimado: muro alto invisível
intransponível para alguns sentimentos menores
agora vivo do outro lado
desse véu de imagem turva
desconectando forças e pedras mágicas
dos meus restantes olhos
reconstruindo-me
lá
onde o desespero encontra o sublime e o perfeito
mesmo a calma inexplicável
num equilíbrio raro impossível-possível
vii
comiseração
assisto com tristeza - é verdade - à perdição
incomensurável
a dor destoutro ser e era eu:
fito-o lá morto cantando a morte
num grito de voz escura cravado de silêncios
sentinela cega num charco estranho
não o poupou a dor
humilhando-o
extinguindo-o
na solidão estagnadamente lavada
- vergonha e covardia -
sentado nas pernas fracas formigando
invadido de sete mil vazios
e de outros tantos medos
soluçando na aspereza com que cobre o rosto
viii
o retorno
ainda bem consegui deixar-me
não quis saber abandonei-me:
a vida já é muito difícil
cada um com sua bactéria imponente!
(o mais perfeito e novo dos sentidos
não se me apresenta):
meneio a cabeça e esfrego a cara:
“dane-se esse otário!”
desfaço a cena e volto adiante:
ix
as horas
outra pressa me persegue
vive correndo
desenfreadamente
atrás de uma geografia sensitiva
em que em me perca ao revés
mas horas covardes
- não todas mas as covardes –
fazem-me tropeçar no espaço-tempo-ironia
acordei na megalópole:
se passares na minha frente
agarrar-te-ei como animal selvagem
Publicado Friday, March 5 2010
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