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Não valho ouro
Por Alberto Borges (Bety Betó)
nem ostento azas p´ra sonhar
não tenho o orvalho, de uma manhã de choro
nem prata no meu lar.
Jazo nos rios de miséria,
aonde outro hora foi o marco de separação,
entre o teu berço lapidado de cristal puro
e a minha tumba de barro cru
tudo que tenho, sou apenas eu - inércia...!
Ah!
Tenho uma vontade tão forte
e um poder tão fraco
de acabar com as vossas angústias,
ó vós explorados...
Sim!
ainda vejo o chicote
comer o nosso pão
e beber o nosso vinho
mas o que se espera de um canibal?
se não deliciar-se de uma mesa falta
de carne e sangue...!
tudo que resta, sou apenas eu – encarnação...!
Sim!
Sou o canto ofegante de um oprimido
Sou melodia sonata de uma poesia, nos acordes de um violão
Sou as palavras censuradas na carta de um condenado
Sou criação, não evolução…
Sou o pensamento banido dos hereges que sonharam com novos sistemas
Sou a voz dos mortos que aclamam humanamente por uma tumba
Sou a ama-seca das crianças que o diabo lhes roubou as almas
Sou oração – Já tenho sido – Aspiração de uma noite não vivida
Sou a ultima vontade não realizado de um fuzilado desconhecido da humanidade
Sou a dignidade em mim gritando – Até quando? – Quero viver outra vida…!
Luanda, 2006
Publicado Wednesday, January 23 2008
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